quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

CONTO - A ILHA DO FAROL



















Desativado havia duas décadas, o imponente farol da ilha ainda mantinha seus encantos. Ícone primacial do lugar, ele era guardião venerável de tantas e intrigantes histórias, por isso mesmo uma edificação temida de ser visitada. No passado constituía-se no único guia para as antigas embarcações que adentravam na estreita baía, cujos arrecifes e inesperadas correntezas provocadas pela viração da maré franqueavam inesperadas armadilhas para os navegadores de primeira viagem. Alguns naufrágios ali transcorreram, contados e recontados, sempre com o mesmo tom de suspense, pelos antigos habitantes, mais particularmente pelos velhos e experientes pescadores do lugar.

Não foi por outro motivo que toda aquela extensão de terra, circundada pelas águas do Atlântico, situada ao norte da capitania da Baía de Todos os Santos e em cujos solos abundavam extensos canaviais, fora batizada, no último quartel do século XVII, de Ilha do Farol. Os negros africanos edificaram o majestoso guia a custa de muito sangue e suor, para alguns até de suas desgraçadas vidas, escravos dos colonos portugueses que envidavam seus lucrativos negócios na orla do continente conquistado. Carecia a ilha de maior proteção. A notícia de que invasores holandeses protagonizaram as suas ousadas incursões na fortificada Salvador e, na seqüência, na principal capitania açucareira da Colônia, a de Pernambuco, concorreu para a edificação da pequena fortaleza relativamente próxima ao farol, da qual, todavia, restavam inacessíveis ruínas. Rota do tráfego negreiro, a ilha servira não apenas de parada providencial para as reposições das antigas naus, como, também, de pequeno entreposto para as negociações do açúcar e das aguardentes produzidos pelos seus modestos engenhos.

Belíssimas e desertas eram as praias da ilha, que logo seduziam a qualquer visitante, ricamente ornadas por denso coqueiral, sendo este secundado pelas roças de subsistência. Passados tantos anos do início da colonização portuguesa, e já no ano de 1836, quando se deram os fatos que a seguir serão narrados, apenas três povoados eram precariamente conformados: Pontal, Sossego e Funil. Neste último mal resistia, tal qual o farol, um vetusto e inacessível pontilhão, outrora a única e perigosa ligação da ilha com o continente. Por isso mesmo, poucos se aventuravam a transpô-lo, não somente em razão das péssimas qualidades desse atalho, muito estreito, sinuoso e quase sempre pontuado por imensos atoleiros, mas, do mesmo modo, porque maculado pelas crendices historicamente repassadas de geração para geração.

No topo do farol residia um velho pescador, hirsuto, cuja tez escurecida delatava a sua mestiçagem, marcado por cicatrizes em suas faces enrugadas, que de lá quase não saía e, quando raramente o fazia para comprar alimentos ou substâncias imperativos a sua sobrevivência, pouco conversava com os comerciantes do Povoado do Funil. Mais fácil era vê-lo à distância remando a sua escalifada canoa. Era inegavelmente um sujeito enigmático. Raros os moradores que visitavam o farol e, mais raro ainda, os que arriscavam qualquer breve diálogo com o “Véio Sombra”. Assim fora alcunhado em razão de postar-se na maior pedra junto ao farol, quando das noites de lua nova ou cheia, e a sua sombra se desenhar nas águas profundas e misteriosas da diminuta baía, pois que em tais oportunidades o velho não dormia, como se aguardasse a entrada, certamente inverossímil, de uma perdida embarcação. Dele se dizia ter naqueles ardilosos arrecifes naufragado, constituindo-se no único e sortudo sobrevivente do bergantim lusitano que ali afundara no final do século XVIII, cujo casco permanecia encravado nas profundezas da baía. Completara-se, já, vinte anos desse naufrágio, no qual perderam as vidas negros bantu, oriundos de São Paulo de Luanda, Angola.

A chegada de uma adolescente à Ilha desvendaria os até ali indevassáveis segredos da vida do instigante e solitário cidadão. Clara, que debutara seus quinze anos, para lá foi trazida por sua avó, Dona Júlia, antiga residente do Povoado do Funil, o mais próximo do farol, em face de sua orfandade. Filha única, Clara perdera seus pais num incêndio provocado pela escravaria rebelde na grande e rica propriedade em que nascera, situada ao sul do litoral sergipano. Não apenas o canavial fora totalmente consumido pelas imensas labaredas, mas, do mesmo modo, a imponente sede da fazenda. Aproximadamente sessenta escravos, a estes somados cinco libertos que desempenhavam serviços nas moendas e caldeiras do engenho, após matarem ao feitor e sua família, fugiram sem deixar rastros. As notícias atestavam que apenas três empregados – a ama de leite, a sua filha que fazia as funções de mucama e o velho caseiro -, por não terem aderido à revolta, teriam sido assassinados, sem que tal notícia, entretanto, fosse confirmada pelas autoridades policiais. O pai de Clara, o abastado senhor da propriedade, Doutor Requião Baptista, era reconhecido em toda a região pela sua severidade no trato com os escravos, tendo, inclusive, sobrevivido a duas tocaias anteriores armadas pelos seus agitados cativos. Do incêndio, junto com sua esposa, pereceria.

Ninguém – e nem mesmo Clara – soube explicar o que propiciara o seu salvamento da tragédia. Ela apenas recordava de dois escravos que a levaram carregada para a senzala da fazenda, quando da invasão da casa grande. Lá teria desmaiado em razão da quentura e do sufoco provocados pelas nuvens de fumaças das chamas devastadoras que acometeram a maior parte da faustosa propriedade. A avó fora avisada do triste acontecimento e, ao chegar à histórica Vila de São Cristóvão, saberia que a neta fora resgatada bastante debilitada pelos inspetores de quarteirão da Vila de Indiaroba e apenas despertaria num leito hospitalar da antiga capital sergipana.

Para Dona Júlia, tornada a única representante familiar, a vinda da neta significaria, naqueles seus longos dias de solidão, alento e alegrias, transmutando o insólito cotidiano daquela esquecida ilha. Costureira afamada, logo passaria seus conhecimentos à neta recém-chegada e, esta, por sua vez, serviria a avó com amável presteza e louvável sentimento de gratidão. Avó e neta, premidas pelas trágicas circunstâncias da vida, ganhavam a chance de viver uma relação fraterna e, naturalmente, de amenizarem a amargura angustiante de suas perdas. Dona Júlia, refém do seu passado, jamais aceitara, mesmo vitimada por precoce viuvez, a mudar-se da Ilha, afinal era o seu local de nascimento, de livre e saudosa infância, onde também casara e fizera bons amigos. Triste e impotente, a velha testemunhara a partida de seus dois filhos varões e tão somente uma vez por ano os revia. E sempre no período natalino. Da ilha Dona Júlia jamais saíra.

A primeira curiosidade – e também desobediência – que Clara teve foi justamente a de conhecer mais de perto o antigo e sedutor farol, sobre o qual logo ouviria as mais intrigantes histórias e, conseqüentemente, os conselhos proibitivos de sua avó para dele não se aproximar, particularmente em razão de seu misterioso inquilino. Também Dona Carmem, a cozinheira da casa, filha de escravos já falecidos e que tinha suas crenças enraizadas nos cultos dedicados aos seus ancestrais, atestava ser o farol “amaldiçoado” e o seu morador, por isso mesmo, a “personificação do capeta”. Crendices que faziam parte do imaginário de toda a gente daquela Ilha atlântica.

Clara, sempre quando o entardecer propiciava o esplendoroso desmantelo do sol, preenchendo o céu e os morros de um âmbar singular, gostava de escalar as pedras que serviam de anteparo natural à Praia do Funil e apreciar o belíssimo espetáculo da natureza. Era o momento em que sua curiosidade mais se desvelava. Nesses instantes de reflexão ela matutava como desvendar os mistérios do imponente farol, ali tão pertinho e disponível para a sua ansiada aventura; ou mesmo conhecer o velho, saber de suas histórias, o porquê daquele isolamento e por quais razões era um sujeito abjurado e temido. Seu desejo crescia enormemente a cada lua brilhante no céu, quando então fitava, quase sem pestanejar, aquela criatura solitária, cuja sombra, refletida na águas iluminadas da baía, mais atiçava a sua vontade.

Passados três meses de sua chegada à ilha, tendo se integrado à turma de meninos que sempre brincava no descampado que praticamente abraçava a todas as casas da rua, ao molde de uma praça irregular, Clara, ao conquistar mais fraternalmente a amizade de Letícia, garota sensível, meiga e que tinha a mesma idade, a esta revelou seus já incontroláveis desejos de visitar ao farol e, sobretudo, conhecer aquele velho que a todos causava espanto. Logicamente que a primeira reação da nova amiga foi de reprovação. Todavia, com o passar do tempo e os efeitos da persuasão de Clara, Letícia foi aquiescendo e finalmente conheceu o plano elaborado pela amiga para, com o máximo cuidado, vivenciar a perigosa aventura.

CLARA: teremos apenas três preocupações básicas: manter em segredo o nosso plano de visita ao farol; ter bastante cuidado para não despertar a atenção dos nossos amigos e, por fim, surpreender ao “Véio Sombra”. Entendeu bem Letícia? Então, quando iremos ao farol?

LETÍCIA: não sei se devo. Tenho medo, muito medo!

CLARA: medo de quê? Até parece que cometeremos algum crime!

LETÍCIA: medo de meus pais saberem, eles não me perdoariam. Sem falar do meu irmão Duda, um sujeitinho que se diverte com o encargo delegado por minha mãe de vigiar-me dia e noite. Menino enjoado! Um dedo-duro! Além disso, Clara, tenho medo daquele velho. Você não tem?

CLARA: vamos por partes. Reflita comigo. Esperar que seus pais - ou, no meu caso, que minha avó - permitam a nossa visita ao farol é causa perdida, concorda? Quanto ao seu irmão, ah, esse sequer irei considerar, já que é um frangote chatonildo a quem nada devemos. Assim como aos outros meninos, também a ele enganaremos com facilidade. Basta que façamos a nossa aventura na hora do jogo de futebol, quando nem aos gritos dos pais eles ouvem. E quanto ao dito velho, bom, só podemos realmente temê-lo se tivermos a coragem de conhecê-lo de perto e assim comprovarmos se ele é ou não a personificação do capeta.

LETÍCIA: personificação do capeta? Vixe! Então você acha mesmo que ele é um demônio?

CLARA: eu não acho nada sua abestada! Deixe de agonia! Ouvi isso de Dona Carmem logo quando a ela indaguei sobre o farol e o tal do velho. Mas entendi que esta visão dela se deve a sua religião, só por isso. Ela crê fervorosamente nos seus orixás e nas misteriosas mandingas. Eu respeito muito a Dona Carmem, porém é outra criatura medrosa igual a você!

LETÍCIA: Ave Maria! Essa nossa conversa está ficando assustadora. Acho melhor a gente esquecer esse plano maluco. Tô fora!

CLARA: então irei só. Fique aí com a sua frouxidão.

LETÍCIA: e terá coragem de ir só? Tá doida?

CLARA: e você ainda duvida? Já que não posso contar com quem tem dito todo dia ser minha fiel amiga, irei só. Como sempre repete minha querida e sábia avó: “antes só do que mal acompanhada”.

LETÍCIA: amiga sua eu sou, mas não tenho tendências suicidas! E saiba que não sou uma má companhia. Aconselho a desistir dessa aventura. Pense melhor, Clara, e depois conversaremos sobre o assunto, certo?

O “certo” com que Clara se livrou da amiga Letícia denunciava qualquer coisa menos uma resposta condescendente. Cada qual tomou o caminho de casa e ela, fitando ao farol de seus desejos, disse em voz baixa apenas para si: aguarde-me “Seu” misterioso guia dos navegantes perdidos! Amanhã mesmo irei inspecioná-lo!

Letícia pouco dormiu naquela noite, invadida por dúvidas cruciantes. Revelaria aos pais a proposta de Clara? Ou apenas contaria a alguma amiga que lhe fosse confiável, desejando, com tal atitude, ter uma posição mais balizada sobre a temerosa aventura? Ou, quem sabe ainda, ignorando ao seu medo e as conseqüências possivelmente desastrosas da ousada empreitada, iria com a nova e corajosa amiga desvendar os segredos do farol e de seu temido zelador? Com as mesmas dúvidas amanheceu, passaria, também, boa parte do dia e, já cansada de tanto refletir, foi procurar, no final da tarde, quando os meninos batiam o seu inadiável “baba” nas areias da praia, a Clara em sua casa. Para seu constrangimento e desespero, Dona Júlia estranhou sua procura, já que a neta havia justamente saído de casa para visitá-la.

Arranjou a primeira desculpa que conseguiu e voltou, em desabalada carreira, para sua casa e lá ficou sabendo que ninguém havia lhe procurado. O seu primeiro gesto foi o de correr para a praia, lado oposto ao que acontecia o dito “baba” dos meninos, e fitar toda a trilha do farol, na vã esperança de vislumbrar a silhueta da amiga a traçar o caminho de sua provável desventura. Apertou seus olhinhos e nada viu. Nenhum sinal de Clara. Sentiu angustiante aperto no coração. Retomou o caminho de casa e lamentou a sua falta de solidariedade para com sua nova companheira. Em silêncio foi para o quarto e rezou. Cansada, enfim adormeceu.

Clara, em razão de seu incontrolável desejo e proeminente coragem, tomara o caminho do farol e, logo que neste chegou, sentiu o clima de mistério que o envolvia. Ali o vento ecoava seus uivos assustadores, como se o farol fosse o único obstáculo a combatê-lo naquelas esquecidas paragens. Completava a sinistra orquestra os silvos das garças que quase planavam nas misteriosas águas e o estrondo das ondas violentamente arremessadas nas imensas pedras ali postadas, configurando uma defensa intransponível para a vetusta e cilíndrica edificação. De pé, bem em frente ao farol, perscrutando o quanto pode os seus arredores, ingenuamente chamou pelo “Véio Sombra”. Nenhuma resposta. Tendo repetido o seu chamado cinco vezes, impaciente aproximou-se da entrada do farol, onde uma grade corroída pelos ares salinos estava entrelaçada ao meio por uma grossa e não menos enferrujada corrente.

Bisbilhotando o que lhe foi permitido, pois enfiara a cabeça por entre as grades, esperou seus olhos acostumarem à escuridão do interior do farol, novamente chamou pelo velho e, tal como antes, nenhuma voz de dentro lhe atendeu. Apenas ouviu o eco de sua própria voz perdendo-se no vazio. Um pequeno lagarto lhe assustou correndo bem ao lado de seus pés, assustado, também, com a sua presença naquela construção pouco visitada. Tendo, ainda, sacudido o pesado portão do farol com a intenção de abri-lo, sem êxito afastou-se do prédio, mirou seu olhar tristonho no topo da edificação e, finalmente, desistiu de adentrar ao farol de seus desejos. Dali saiu prometendo retornar em breve. Mas teve a nítida sensação de estar sendo vigiada lá de cima pelo esquivo residente. Sentiu estranho calafrio e escafedeu-se.

Ao chegar à casa de Letícia e logo sabendo que a amiga ainda dormia, Clara correu e mergulhou na praia, a tempo de testemunhar uma briga corriqueira entre dois de seus amigos, relativa à partida jogada. Esquivou-se para não ser vista e tomou o caminho de casa. Sem contar sua aventura à Dona Júlia, tomou banho de água doce, comeu frutas, pegou água na moringa e disse para avó que dormiria cedo. Fechou a porta de seu quarto e refugiou-se. Desejava reorganizar suas idéias. Deitada na cama passou a relembrar de cada detalhe do farol e, em especial, da sensação que sentiu ao sair. Quando nisso pensava, adormeceu. Ao despertar na manhã seguinte, lembrou-se do pesadelo que tivera, no qual, numa noite de lua cheia, tendo penetrado no farol, se deparava, para sua tristeza, com o velho estirado numa estropiada cadeira de balanço, morto em sua morada ali rudemente improvisada no topo da histórica construção. Tendo se aproximado do defunto percebera, horrorizada, que a face era a de seu falecido e querido pai e então gritara com a máxima força de seus pulmões. O cansaço permitiu-lhe dar seqüência ao sono.

Logo cedo, quando ainda tomava o seu café da manhã, Clara recebeu a visita de Letícia. Após narrar em voz baixa e detalhadamente tanto a sua visita mal sucedida ao farol, quando o infeliz pesadelo, a amiga que já andava inculcada com toda aquela aventura descabida, renovou seus conselhos para que Clara dela definitivamente desistisse. Esta, como era de se esperar, deu a sua firme resposta.

CLARA: nem pensar. Sobretudo agora! Desconfio, minha querida “frouxilda”, de que o velho precisa de ajuda. Ficou me olhando lá de cima. E depois o pesadelo que tive de madrugada foi como um aviso para mim. Amanhã retornarei ao farol. Já decidi.

LETÍCIA: o que posso fazer para ajudá-la? Quero dizer, para convencê-la de que não deve mais voltar àquele farol?

CLARA: se quer mesmo ajudar não me peça para não ir. E mantenha seu bico calado!

Duda, apesar de sempre vigilante aos atos de sua irmã Letícia, era um rapazola interessante, inteligente e expansivo. Completara dezessete anos. Gostava, inclusive, de poesias. Quando das festas familiares ou dos poucos eventos da comunidade, sempre era escalado para recitar versos, o que fazia com bastante dramaticidade, sendo por tal desempenho sempre elogiado. Desde a primeira vez em que pôs os olhos em Clara ele sentiu o descompasso nos batimentos do seu coração, seduzido não somente pela beleza da adolescente, mas, em especial, pela forte personalidade da nova moradora do Funil. “Não havia menina como Clara no Povoado do Funil”, assim ele julgava. A amizade encetada pelas meninas, Clara e Letícia, contribuiu para que ele ficasse mais tempo próximo de seu objeto de desejo. Enquanto Letícia continuaria a pensar que a presença mais efetiva de seu irmão ao seu lado se dava a mando de sua protetora mãe – o que muito lhe aborrecia -, na real Duda tinha novas intenções e planos arquitetados em seus pensamentos.

Foi, portanto, este seu interesse por Clara que propiciaria à Duda escutar, escondido atrás da porta do quarto de Letícia, a última discussão que sua irmã envidava com a nova amiga. Cuidadoso, ainda que também temesse escarafunchar o maldito farol, plantou-se, na tarde seguinte, na extremidade da praia, recolhido atrás de uma inválida embarcação, e aguardou pacientemente pela passagem de Clara. Assim, quando Clara irrompeu a sua correria pela praia, em demanda da ponta da ilha, onde o farol se encontrava, Duda, com o necessário cuidado, correndo como um gato tinhoso, seguiu-lhe a trilha.

Tendo chegado ao farol, Clara dirigiu-se ao velho portão e logo chamou pelo Véio Sombra. Novamente não ouviu resposta. Sem tanta paciência, afastou-se da construção e começou seu confiante discurso.

CLARA: Véio Sombra! Véio Sombra! Sei que está aí. Não precisa temer. Sou alguém que apenas deseja conhecê-lo melhor e a este belo farol. Também não tenho medo de você. Vamos! Abra o farol para que eu possa entrar. Véio Sombra! Véio Sombra!

Um silêncio sepulcral dominava o ambiente. Novamente o vento sinalizou sua presença voraz. Como a maré era vazante, poucas ondas, naquela oportunidade, quebravam nas pedras.

CLARA: Véio Sombra! Já sabe que ontem eu estive aqui e que virei quantas vezes me for possível até que me atenda, que acredite que sou de paz. Vamos Véio Sombra! Abra este portão! Véio Sombra! O que uma menina como eu poderá lhe causar de mau, ou ser temida? Véio Sombra!

O susto de Clara foi mesmo inenarrável quando, ao invés de ser atendida pelo velho morador, ela escutaria uma voz repreensiva as suas costas.

DUDA: Clara! O que está fazendo? Você é muito corajosa para vir aqui sozinha. Perdeu o juízo? Não deveria ter vindo aqui!

CLARA: quer me matar de susto seu garoto enxerido? Eu é que lhe pergunto! O que você está fazendo aqui? Acaso agora também é meu vigilante? O que a minha avó lhe prometeu em troca?

DUDA: não se trata disso, Clara. Apenas fiquei preocupado quando soube que viria neste local proibido. É muito perigoso, ainda mais para uma menina como você, tão nova na ilha e que não conhece os mistérios que envolvem este farol mal assombrado.

CLARA: que decepção! Sua irmã, além de não ser nada solidária e demasiadamente medrosa, também tem o mau costume de fofocar. Amigas assim é melhor mesmo ter inimigas declaradas!

DUDA: não Clara, não seja injusta com minha irmã. Ela nada me disse. Vocês ontem discutiram o assunto e em razão do tom alto da conversa pude ouvir tudo. Preferi não me meter na discussão de vocês e hoje resolvi segui-la para protegê-la de qualquer eventualidade. Assim como eu, Letícia gosta muito de você e apenas estamos preocupados.

CLARA: pronto! Mais um “protetor-mor” das indefesas meninas do Funil! Já não bastam pais, mães, avós, padres, perus, bajuladores, dedos-duros? E depois, meu caro Duda, quem lhe pediu proteção?

DUDA: ninguém me pediu. E muito menos você. Mas sempre aprendi que esses gestos a gente faz naturalmente quando a pessoa a ser protegida necessita e, sobretudo, merece. Mas percebo que neste caso não deveria mesmo ter me preocupado. Desculpe-me Clara! Perdoe-me! Fique em paz e que Deus lhe proteja. Afinal Ele é sempre mais poderoso do que qualquer um de nós, que somos suas criaturas, concorda? Tô indo.

Duda, cabisbaixo e arrependido, iniciou lentamente o seu caminho de volta, quando do topo do farol, aos dois surpreendendo, uma voz rouca, entoada com gravidade, asseverou.
VÉIO SOMBRA: vá e leve sua amiga! E não ousem mais voltar aqui! Vamos! Deixem-me em paz! Vamos! Saiam daqui!

Quase imperceptível, o velho se esquivou e retornou para o recôndito de sua tosca moradia.

Duda direcionou um último olhar cobrador para Clara que, ainda tocada pelas palavras que ouvira em resposta a sua agressiva reação e, da mesma forma, assustada com a recepção nada amistosa do velho, aquiesceu e também do farol se afastou, juntando-se à Duda na caminhada de volta.

Somente quando eles chegaram às proximidades da pracinha do povoado, o nervoso mutismo foi quebrado pela menina afoita.

CLARA: quem, na verdade, deve desculpas sou eu. Não deveria tê-lo tratado daquela maneira. Culpa desse meu jeito meio estabanado. Com o tempo, se assim quiser ou tiver paciência, vai se acostumar comigo.

DUDA: não carece se desculpar. Tudo bem.

CLARA: então amigos?

DUDA: sim. Amigos.

Após apertarem as mãos e trocarem tímidos sorrisos, cada qual tomou o seu caminho de casa. Duda, mais do que pensara, percebeu a intensidade de sua paixão por aquela criatura despojada. E sentiu que este despojamento de Clara, apesar de contrariá-lo, era, na verdade, o que mais lhe seduzia. Até chegar a sua casa elevou a mão direita com a qual respondera ao cumprimento por várias vezes ao nariz, inebriando-se com os resquícios do perfume que Clara nela deixara.

A adolescente desinibida, por sua vez, após friamente refletir sobre os acontecimentos daquela tarde, passou a ter de Duda uma imagem diferente do que lhe pintara a sua amiga. Inteligente e sensível, Clara também percebeu que um “algo mais” se expressara na conduta daquele garoto educado em relação a sua pessoa. Talvez esse “algo mais”, se acaso confirmado, seria, sem dúvida, um bom motivo para conquistar mais facilmente a solidariedade de Duda em relação à realização de seu persistente desejo de conhecer o misterioso farol e desvendar os segredos do seu agressivo residente. Tudo lhe pareceu caminhar para o êxito de sua desejada empreitada.

Dois dias após a frustrada visita ao farol, num domingo ensolarado, os pais de Duda e Letícia resolveram realizar um passeio de barco pela orla da ilha, visitando as praias dos povoados de Sossego e Pontal. Os meninos, cada qual movido pelo seu interesse particular, convidaram a Clara, alegando aos pais que a menina recém-chegada ainda não conhecia o restante da ilha. Solicitação aceita, Clara embarcou com a família de seus novos amigos para um passeio inesquecível.

As águas da praia do Povoado de Pontal eram mornas e transparentes, propiciando um banho relaxante. Quase sem ondas e pontuadas de piscinas naturais, ali as pessoas mergulhavam e esqueciam as horas. A visita seguinte também encantaria a Clara. O Povoado do Sossego realmente fazia jus ao nome de batismo. Nele almoçaram sob o frondoso coqueiral, acolhidos por um silêncio tranqüilizador, somente alterado pelas vagas que carinhosamente batiam na beira da praia. Se de fato existia paraíso, provavelmente o Povoado do Sossego dele era um descendente natural.

O passeio proporcionou uma maior e mais prazerosa proximidade de Clara em relação à Duda, gerando desconfianças em Letícia. É que os agora novos amigos, pelo fato de conversarem longamente sobre vários assuntos e até sobre gostos particulares, causaram surpresa e ciúmes a Letícia, que se sentiu, no mínimo, desprezada. E quando o assunto foi o farol da ilha, Clara e Duda tiveram o cuidado de baixar o tom de suas falas, pois que ambos conceberam as dificuldades para contar com o apoio ou a participação de Letícia. Mais do que isso, temiam que ela, premida pelo medo ou por sua renitente discordância, revelasse o segredo para os pais.

Duda, após aquele dadivoso domingo, se transformaria. Não eram mais os “babas” na praia e nem os “garrafões” na pracinha que lhe roubavam o tempo. Passou a dar desculpas aos amigos para explicar suas recentes ausências e sempre arranjava outras para justificar a sua presença junto a Clara, Letícia e as demais amigas de sua irmã. Tal conduta não apenas lhe trazia gozações desagradáveis de seus amigos, como, também, suspeitas cada vez mais passíveis de se transformarem em certezas da parte da irmã ciumenta. Como atestava o ditado popular: “a paixão cega”.

Num daqueles majestosos finais de tarde em que o sol produz o seu singular espetáculo, despedindo-se poeticamente na linha imaginária do horizonte, Duda, encorajado pelo deslumbrante visual, confessou seus sentimentos para Clara. Após breve silêncio, a menina sorriu e, com a desinibição que lhe era peculiar, também revelou os seus. Beijaram-se. Teve início, ali, um belo e dramático relacionamento afetivo, uma paixão comovente, pois que seria abrupta e precocemente interrompida pela inexplicável fatalidade da vida. E neste mesmo entardecer o novo casal combinou para o final da tarde seguinte uma nova incursão ao farol, não sem antes dar conhecimento à Letícia das duas decisões: a do namoro iniciado e a de mais uma vez escarafunchar o misterioso ícone da ilha.

Letícia - como fora previsto por Duda e Clara - negou-se novamente a participar da empreitada, mas aos dois jurou que nada comentaria em casa e tampouco falaria para as outras amigas da turma. Apenas prometeu rezar rogando proteção a Deus para ambos. A surpresa do casal deveu-se ao silêncio de Letícia em relação à notícia do namoro, o que até despertou breve preocupação. Todavia, seduzidos para visitarem ao farol, logo esqueceram a reação silenciosa de Letícia.

Diferentemente dos últimos dias, um céu cinzento, bastante carregado de densas nuvens, abraçou praticamente a todo o Povoado do Funil. Um vento anunciador de chuva já sacudia as embarcações no ancoradouro, o que antecipou, inclusive, o retorno dos pescadores e fez cair às mangas maduras, logo recolhidas do chão pelos moleques que brincavam na rua. Este cenário contribuiu para a aflição de Letícia, pois, apesar do tempo, Duda e Clara teimosamente cumpriram com o plano estipulado.

O jovem casal apaixonado, tendo chegado ao farol, foi colhido pelo aguaceiro. Apenas a imensa parede da edificação serviu-lhes de incompetente amparo, eis porque suas roupas logo se ensoparam, causando-lhes insuportável frio. Juntos gritaram o nome do velho. Somente quando roncou o primeiro e forte trovão, cujo raio havia clareado artificialmente as águas da baía, Duda e Clara temeram por sua segurança. Sabiam que não poderiam retornar para casa, pois a probabilidade de serem atingidos por um raio era real. O desespero tomaria conta de ambos, pois, em razão da chuva e dos ventos, a viração da maré se dava mais violenta e o único e estreito caminho pelo qual ali chegaram, circundando as pedras, já fora totalmente coberto pelas águas da enchente. O que fazer?

Duda, abraçando e rogando calma a sua namorada, ali pela primeira vez esboçando medo, tentou tranqüilizá-la, sugerindo uma breve oração. Ambos contritamente rezaram. A chuva não dava trégua e as ondas cada vez mais fortemente resvalavam nas pedras, espirrando suas espumas fantásticas a alturas inconcebíveis. Dava-se, de fato, um tenebroso espetáculo, ainda mais assustador pela rápida chegada da noite.

Foi justamente com a chegada da precoce escuridão que Duda e Clara experimentaram um susto maior: o Véio Sombra, tendo silenciosamente aberto o gasto portão de sua fortaleza, com a mesmíssima gravidade de sua voz, secamente disse:

VÉIO SOMBRA: isto nada mais é do que um merecido castigo da natureza dado a fedelhos tão teimosos como vocês. Vamos! Entrem antes que eu desista dessa minha rara atitude caridosa!

Os olhos esbugalharam em suas faces juvenis e, como não tinham mesmo alternativa, trêmulos de frio e medo, adentraram ao farol. Mantiveram-se de mãos atreladas e num penoso silêncio. O velho, percebendo a situação, entrelaçou a corrente no gasto portão – assustando mais ainda aos meninos – e os indicou a subida. Após trocarem seus olhares de dúvida e notando que o velho já se enveredava pela longa e curvilínea escada, novos trovões roncando na baía, Duda e Clara acompanharam aquela estranha criatura. Neste exato momento, um grande clarão iluminou ao interior do farol, logo secundado por um novo e violento estrondo, sinalizando a proximidade perigosa das nuvens que encobriam os céus da ilha. Grande pavor ali foi sentido.

Ao chegarem com pouco ar ao topo do farol, o velho apontou uma esteira para que ambos sentassem e tomou seu lugar bem embaixo do embaçado vitral da antiga construção. Já sentada na esteira, Clara sentiu forte calafrio ao visualizar a alquebrada cadeira de balanço em que se acomodara o velho, a mesma que lhe aparecera no pesadelo. Duda, percebendo a aflição de Clara, novamente pegou em suas mãos, que estavam frias e trêmulas.

O velho, após acender a um charuto mal cheiroso, olhou para os céus em desatino e calmamente relatou:

VÉIO SOMBRA: foi numa noite tenebrosa igual a esta que aqui aportei pela primeira vez. Noite de sofrimentos e de ranger de dentes. Uma noite de feroz tempestade. Uma noite de castigo!

Ao dizer mais incisivamente esta última frase, fez questão de arregalar seus olhos, direcionando o olhar para o jovem casal invasor. E o silêncio persistiu por alguns minutos, durante os quais novas rajadas foram escutadas, só que os barulhos dos trovões sinalizaram menor incidência.

VÉIO SOMBRA: surpreende-me o medo de vocês. Perderam até a voz! Pareciam-me tão corajosos! O que então desejavam quando aqui estiveram e por que, sob um temporal dessa natureza, aqui retornaram! Além de mudos parecem que são também surdos, pois avisei que não viessem mais aqui. Já que teimaram, o que realmente desejam? E você, minha jovem, que tanta coragem demonstrou outro dia? Vamos! Diferente do que devem imaginar, não disponho de tanto tempo.

Duda, enquanto o velho pronunciava seu provocante questionamento, percebeu que aquela moradia tinha dois compartimentos, zelosamente separados por uma improvisada divisória de madeira. Apurando mais a sua curiosidade, vislumbrou a ponta de uma carcomida estante em que vários livros se amontoavam, carentes de urgente arrumação. Quando se dedicava a identificar algum título, Clara finalmente abriu a boca.

CLARA: desculpe, Senhor, pelo aborrecimento. Não queríamos incomodar.

VÉIO SOMBRA: já aborreceram e incomodam. E tenho plena certeza que os seus pais também ficarão aborrecidos quando souberem dessa teimosia. Diante do que lá fora acontece, também devem estar bastante preocupados. Mas o que querem afinal?

DUDA: também peço desculpas, Senhor. Na verdade, eu sempre tive muita curiosidade de entrar aqui neste farol. E ele é mais ou menos como eu pensava, apenas não imaginava que uma pessoa poderia nele viver normalmente, como agora comprovo ser isto possível. O Senhor também gosta de ler?

Carregando novamente o seu semblante, que havia relaxado, o velho conferiu a abertura de sua divisória e entendeu o porquê daquela pergunta do garoto observador.

VÉIO SOMBRA: qual a serventia desta pergunta? Quem aqui questiona sou eu. E saiba que curiosidade tem limite e sendo esta indevida pode causar danos irreparáveis.

DUDA: perdoe-me Senhor. É que vi alguns livros ali na sua estante e, como eu também gosto de ler, especialmente contos e poemas, perguntei. Mas não tive qualquer indevida intenção. Desculpe-me!

O velho, após a justificativa dada pelo garoto, distraiu-se olhando para o horizonte, como se aquele assunto propiciasse recordações de algo relevante, do qual sentisse saudade, pois seus olhos brilharam transformando radicalmente a sua carregada e costumeira expressão facial. Clara aproveitou aquele raro momento de mansidão do estranho inquilino do farol.

CLARA: compreenda, prezado Senhor, que o seu modo de vida, quer dizer, o fato de residir aqui, sozinho e evitando o convívio normal com as pessoas, nos cause estranheza e, por conseguinte, curiosidade. E não somente a nós dois! Some-se a isso a vontade que muitos têm de melhor conhecer este velho farol, sem dúvida uma construção belíssima, tão antiga e, por isso mesmo, deve guardar instigantes histórias dessa não menos bela ilha.

O palavreado competente de Clara surpreendeu ao velho, nele suscitando o interesse de saber mais detalhadamente quem era aquela inteligente, bonita e corajosa menina.

VÉIO SOMBRA: como é mesmo o seu nome, filha?

CLARA: Maria Clara Requião Batista. Cheguei recentemente à ilha.

A expressão de surpresa desenhada na face enrugada do velho trouxe de volta os receios aos dois meninos. Sem dar qualquer explicação, o desconhecido morador levantou-se abruptamente da cadeira e, aproveitando-se da estiagem da chuva, desconversou deseducadamente.

VÉIO SOMBRA: bom, é hora de terminar esse converseiro, o qual, aliás, jamais deveria ter começado. A chuva já passou e vocês devem logo retornar para as suas casas. Pela última vez os alertarei: não mais me apareçam por aqui. Não são meus convidados e não terão simpática acolhida. Vamos! Desçam comigo! Hora de partir!

Vociferou tais palavras e desceu apressadamente a escada, apesar da idade que aparentava ter. Duda e Clara, surpresos com a interrupção daquele encontro tão desejado, obedeceram aos mandamentos do velho, mas, quando atravessavam ao enferrujado portão, Clara, não se conformando com a postura deseducada do morador, arriscou:

CLARA: o que foi, Senhor, que tanto lhe desagradou? Dissemos algo que acaso não tenha apreciado? Não contaremos a ninguém dessa nossa visita ao farol e muito menos sobre a conversa que tivemos com o Senhor.

VÉIO SOMBRA: vamos! Desapareçam daqui! Principalmente a senhorita! É muito insistente em seus atos! Vamos! Saiam! Deixem-me em paz!

O velho fechou violentamente o portão, entrelaçou a corrente e subiu a escada sem sequer olhar para trás. Os meninos, novamente assustados, se entreolharam sem nada entender e tomaram o caminho de volta. Ainda ventava muito e o ar frio advindo do mar causava arrepios.

Nas proximidades do povoado notaram que os pais de Duda e Letícia, Dona Júlia amparada pela cozinheira Carmem, além de alguns meninos e o Intendente da ilha, Doutor Juvenal Pereira, estavam reunidos no cais. Teriam de dar uma boa desculpa para justificarem as suas ausências. Letícia socializara o segredo? Grande possibilidade. Por isto resolveram primeiramente escutar as incômodas cobranças de todos para ganharem algum tempo e, assim, apresentarem a resposta menos prejudicial.

Acolhidos pelos abraços de seus respectivos e aflitos familiares, e logo por todos questionados, Duda e Clara, ao perceberem um breve sinal negativo de Letícia, se tranqüilizaram. Clara, então, deu a sua versão “arrependida” e fantasiosa aos ansiosos ouvintes.

CLARA: primeiramente, peço perdão a todos vocês. A culpa foi toda minha. Ele apenas foi um bom companheiro.

Duda, diante da impensável segurança de Clara, atinou ser mais inteligente naquele momento permanecer de bico calado.

INTENDENTE JUVENAL: o que se passou com vocês bonita menina?

CLARA: por pura curiosidade - até porque vocês sabem que ainda não conheço a ilha na sua totalidade - caminhei para as bandas do velho pontilhão, com o interesse de não somente conhecê-lo de perto, mas, igualmente, para catar os tão elogiados araçás que muitos de vocês aqui da ilha não cansam de a eles se reportar como deliciosamente doces. Na passagem, encontrei Duda que me advertiu ser um local perigoso, ainda mais quando o céu prometia chuva forte, como, de fato, os ventos já anunciavam a tempestade no horizonte. No entanto, fiz ouvido de mercador, despedi-me dele e segui meu caminho.

Letícia, querendo ajudar na mirabolante história, ralhou com o irmão:

LETÍCIA: e você seu frangote! Por que não insistiu com ela para desistir de seu passeio, ou então por que não a acompanhou?

Duda, ainda ofuscado pela criatividade de sua namorada, permaneceu em silêncio e expressou uma cara de desentendido.

CLARA: calma Letícia. Ao seu prestimoso irmão devo o meu retorno.

DONA JÚLIA: então continue minha netinha. E aí, o que fez?

CLARA: realmente deveria ter considerado os conselhos de Duda. Após atravessar o precário pontilhão, sob o açoite dos ventos, resolvi logo retirar alguns araçás para não perder a viagem. Nesse exato momento a chuvarada caiu sobre mim e testemunhei um raio clarear toda a vegetação. Fiquei atordoada, porque aprendi com meu saudoso pai que nunca deveria ficar próxima de árvores quando houvesse raios. Sem atinar direito qual direção tomar, agoniada com o estrondo dos trovões, visualizei um pouco distante umas ruínas e para elas corri, escapando, assim, da possibilidade de ser atingida pela carga fatal de um raio.

INTENDENTE JUVENAL: conduta inteligente querida menina, apesar da indevida visita àquelas ruínas. Mas, diante da gravidade da situação, foi mesmo uma acertada opção.

LETÍCIA: sim, Clara! E o que se deu depois?

CLARA: tentei me acalmar, pois daquelas ruínas exalava um fedor medonho de enxofre, de coisa ruim. Também temi pela sua gasta estrutura diante daquele aguaceiro violento. Quando finalmente a chuva amenizou, escutei, feliz, a voz de Duda clamando pelo meu nome. Saí das ruínas e respondi ao seu chamado. Ele já havia atravessado ao pontilhão e, após novamente me repreender, guiou-me de volta para cá. Reconheço que não foi uma boa experiência. Perdoe-me vovó! E uma vez mais quero lhe agradecer Duda. Portou-se como um prestativo cavalheiro.

Os pais de Duda cumprimentaram o filho e educadamente se despediram de todos os presentes, não sem antes relembrarem aos dois meninos, agora livres da forte tormenta, que deveriam, quando deitassem, renovar os agradecimentos a Deus por estarem sãos e salvos. Todos concordaram e silenciosamente trilharam o caminho de suas casas.

Além de rezar, Clara demoraria a fechar seus olhos, pois que a intempestiva reação do Véio Sombra não lhe saía da mente. Afinal, o que causara aquela repentina mudança de humor no velho morador do farol? Aos poucos foi reconstituindo os diálogos do Véio Sombra com Duda e os que ele tivera com ela própria. Então lembrou, com exatidão, que a inesperada mudança de comportamento se dera logo após ela ter pronunciado o seu nome. Intrigada, indagou-se: qual a relação dessa simples revelação com a indignada reação do velho?

No dia seguinte, após ajudar a Dona Júlia nas costuras, saiu de casa prometendo a avó que apenas visitaria a Letícia e não demoraria. Banhou-se, beijou a testa de Dona Júlia e se foi.

Na verdade, Clara queria mesmo era conversar com Duda sobre a desconfiança que lhe atormentava os pensamentos, alusivas à manifestação de seu nome seguida da reação do Véio Sombra. Precisava avaliar com mais serenidade o que se dera. E essa desconfiança evidentemente contribuiu para aumentar a sua curiosidade acerca daquele cidadão solitário. Duda e Letícia reagiram negativamente às elucubrações de Clara, ressaltando que ela mal chegara à ilha, vinda de longe, das bandas de Sergipe, o que tornava mais difícil qualquer relação da vida do velho com a sua existência. Clara insistiu e até relembrou do pesadelo, interpretando-o como um “aviso” ou um “chamamento” a ela endereçado para talvez procurar aquela criatura misteriosa do farol. Os dois amigos riram dessa justificativa, o que, de certa forma, lhe aborreceu. Clara, então, fez a sua consulta a Duda, demonstrando impaciência.

CLARA: voltará ou não comigo ao farol?

Duda, fitando à Letícia com expressão de dúvida ou como se rogasse ajuda da irmã para melhor responder a sua namorada, balbuciou algumas palavras fugidias, sem muito sentido.

DUDA: parece-me que o tempo ainda oferece perigos para qualquer investida.

CLARA: não lhe indaguei sobre as condições do tempo! Perguntei se me acompanhará ou não! E não tenha receio de responder negativamente.

LETÍCIA: calma amiga. Esta sua ansiedade ainda lhe trará problemas. Não percebeu que realmente não devemos incomodar ao Véio Sombra? Você própria tem confessado a sua estranheza diante daquela reação agressiva só porque ouviu seu nome. Na verdade, não podemos sequer prever o que ele é capaz de fazer! Por que não esquecemos o farol, o velho e cuidamos das nossas vidas?

CLARA: tudo bem! Já compreendi. Penso que muito mais do que ao velho, tenho incomodado a vocês. Mas fiquem tranqüilos. A partir de agora se sintam descompromissados com o assunto e comigo. Sem mais problemas! Tô indo para minha casa. Até breve!

Com o semblante visivelmente entristecido, Clara abriu a porta e ganhou a rua. Diferente do que anunciara, ao invés de sua casa, caminhou na direção da igreja matriz e nela penetrou silenciosamente. Os irmãos, absortos, fitaram à amiga até o momento em que sua imagem desapareceu no templo. Duda recolheu-se em seu quarto e até temeu pelo fim do recente namoro. Arrependeu-se de ter deixado Clara evadir-se sem sequer trocarem um mínimo carinho.

Dois dias após aquela separação, Duda, que já desconfiava das intenções de Clara, redobrou a sua vigilância, atitude que favoreceria um novo flagrante à fuga de Clara do povoado para envidar uma nova – e agora derradeira – visita ao velho do farol. E tal qual se dera quando da última aventura, também chovia na ilha no momento em que Duda percebeu a silhueta da namorada entrecortando os barcos recolhidos na areia e tomar a direção do misterioso monumento. Não titubeou um instante sequer e a seguiu com o mesmo passo dos ardilosos felinos quando no exercício de suas caças.

Desta vez a recepção à insistente menina dar-se-ía na praia, já que o velho acabara de ancorar a sua velha canoa e cuidava dos seus apetrechos de pescaria, naturalmente apressado em face da chuva que já se precipitava. Vendo a menina se aproximar, imediatamente exibiu seu semblante enraivecido e vociferou sem cerimônias:

VÉIO SOMBRA: a sua insistência me aborrece e temo pela sua vida. Saia daqui antes que eu cometa um desatino, menina!

CLARA: por que a minha presença tanto lhe incomoda? O que fiz de errado em relação ao Senhor? Tenha paciência comigo e não me julgue precipitadamente!

O velho não respondeu, virou-se abruptamente e resolveu empurrar sua canoa de volta para as águas revoltas, assustando a Clara.

CLARA: não faça isso, Véio Sombra. Não precisa voltar para o mar. Sabe do perigo de navegar sob esta chuva que promete piorar. Por favor! Só quero conversar.

Tendo alcançado a beira da praia e a canoa penetrado no mar, antes de começar a remá-la, Véio Sombra reclamou com a menina.

VÉIO SOMBRA: este não é o meu nome. Se você daqui não sai, sairei eu.

CLARA: já lhe disse, Senhor, não carece sair neste mar revolto. Perdoe-me por chamá-lo dessa forma, pois foi assim que aprendi lá no povoado. Então me diga qual é o seu verdadeiro nome e o chamarei com muito prazer. Por favor, escute-me!

VEÍO SOMBRA: vai se arrepender de ter voltado aqui.

Disse isso, pegou do remo e deu partida a canoa, mas logo seria colhido por uma enorme e violenta onda. A rude embarcação não suportou ao impacto e virou, atirando-o nas águas frias e agitadas. Clara, em face do velho não ter emergido da queda, desesperada e sem atinar no que faria, mergulhou no mar e percebeu manchas de sangue junto à embarcação avariada. Supôs acertadamente que o velho batera a cabeça, perdera os sentidos e, por isso, afogava-se.

Duda, que a tudo percebera à longa distância, escondido atrás das pedras, pois não queria ser notado por Clara, temendo, talvez, nova repulsa de sua amada, correu desatinado para a praia e igualmente mergulhou no mar. Agoniado, escutava aos gritos sufocados de Clara. Quando enfim se achegou da namorada, em meio ao furor das ondas e sob forte temporal, pode testemunhar seu corpinho, atrelado ao do velho, já desfalecido e em movimento descendente, sucumbir para o fundo da baía, tendo a expressão de horror a lhe desfigurar a sua face juvenil. Jamais esqueceria essa triste imagem. Trauma que levaria muitos anos para se amenizar.

Dois pescadores que serenamente proseavam nas proximidades, recolhidos à casa de pesca no aguardo da estiagem, ao ouvirem os gritos alucinados de socorro emitidos por Duda, correram à praia e o resgataram com imensa dificuldade. Foram necessárias várias massagens em seu peito e o recurso indispensável da respiração boca-a-boca. Ainda trêmulo e desnorteado, Duda apenas balbuciava o nome de Clara, o que bastou para o entendimento dos pescadores. Até porque também, trazida pela força das águas, a canoa do velho deu na beira da praia, sendo logo por eles reconhecida e recolhida para a areia.

Desnecessário comentar o sofrimento de Dona Júlia ao saber daquele drástico acontecimento. Inconformada com a perda da neta, a costureira careceu de internamento hospitalar, tendo sido transferida para a capital da Província, onde, transcorridos tão somente quinze dias do duplo afogamento, também ela viria a falecer, acometida de colapso cardíaco. Foram dias de respeitoso luto no Povoado do Funil. Missas foram encomendadas pelas almas da avó e de sua querida netinha. Para além de toda a tristeza, alguns moradores mais curiosos tentavam entender o que acontecera de fato naquele final de tarde tenebroso. Os corpos de Clara e do Véio Sombra, como muitos pescadores previram, somente boiaram no dia seguinte na praia do Sossego, causando indecifrável consternação, especialmente, é lógico, pelo falecimento de Clara. Acreditou-se, durante muito tempo, que o velho misterioso havia se precipitado propositadamente no mar e, em razão de suas esquisitices ou da probabilidade de Clara ter descoberto alguma coisa grave sobre o seu passado desconhecido, levara com ele a ingênua e indefesa adolescente.

A verdadeira identidade do Véio Sombra apenas seria descoberta quando Duda, passado um mês da perda de sua amada, guiado pela saudade dolorosa e, da mesma forma, desejando homenagear a Clara com a esperança de, visitando ao farol, desnudar a vida daquele infeliz sujeito, numa noite de lua cheia resolveu perscrutar a moradia do falecido.

Sentiu calafrios e a vontade de desistir logo que pisou no topo do farol e respirou a umidade fúnebre ali reinante. Precisou acender ao candeeiro, o que lhe causou dificuldades. Transpondo a divisória improvisada do pobre ambiente, deparou-se, além da estante que já esperava visualizar, com uma velha mesa cheia de papéis rabiscados, amparados por pedras para se defenderem do vento, os quais ele entendeu serem rascunhos de uma longa carta. Assustou-se ao verificar que a missiva se destinava à Clara e estava datada coincidentemente com a mesma data do triste afogamento. Saiu do improvisado escritório e sentou-se na velha cadeira de balanço do velho. Com sofreguidão, leu o que estava escrito.


Farol da Ilha, 25 de janeiro de 1836.

Prezada Senhorita Clara

Tenho, há praticamente vinte anos, me refugiado de tudo e de todos neste insalubre e histórico farol. Creia que este modo de vida não foi livremente por mim escolhido e nem tampouco me agrada. Desde já saliento que a solidão tem algo de assustador e a cada dia triste e lentamente me rouba os últimos resquícios da minha frágil e conturbada existência. Apenas os peixes e os livros me são ditosos companheiros.

Entenderá que o seu surgimento nesta esquecida ilha resultará na mudança de minha vida solitária para outras distantes paragens, o que, em face da minha avançada idade e precária saúde, muito me amedronta. Mas não há outra solução. A seguir explicarei o que aqui já sinalizo.

Na verdade chamo-me João Crisóstomo de Almeida Salgado. Sou filho de um ilegítimo e forçoso cruzamento de uma ex-escrava com um feitor mestiço, naquele tempo um sujeito já oficialmente casado. Nasci, fui criado e penosamente rejeitado num rico engenho açucareiro, situado na vizinha capitania de Sergipe, do qual meu vergonhoso pai era o principal empregado, cujos serviços se resumiam a vigiar o árduo trabalho dos escravos nos canaviais e a castigá-los sem dó quando os mesmos cometiam a mínima falta. Para que perceba a perversidade desse feitor, infelizmente meu pai biológico, ele próprio castigou a minha mãe quando ela, desesperada pela indesejada gravidez – pois fora por ele estuprada -, buscou auxílio confiando o delicado assunto a sua patroa. Hoje me sinto próximo de empreender involuntariamente a minha derradeira despedida e até me assusto por ter alcançado os meus setenta e cinco anos. Talvez não mereça viver tanto tempo.

Saiba, menina Clara, que as mulheres daquele tempo – como, aliás, muitas ainda hoje assim o fazem única e exclusivamente por medo – sentiam-se obrigadas a relatar para seus autoritários esposos todos os assuntos e eventualidades que se davam debaixo do teto em que viviam. Terá no testemunho de sua dedicada avó a confirmação dessa dura obrigatoriedade do gênero feminino. Ao saber daquela gravidez, meu pai passou a ser chantageado cotidianamente pelo seu patrão, experimentando, além de uma carga exagerada de trabalho e responsabilidades, as mais humilhantes situações. Acaso fosse denunciado, responderia a processo cuja sentença certamente seria a perda de sua liberdade. Toda a sua ira e toda a sua obrigatória humilhação seriam carreadas para mim, portanto a infeliz criança nascida de uma relação indevida e ultrajante. Rejeitado e sendo fruto de barriga escrava, fui tratado como escravo e jamais reconhecido como filho de um truculento feitor. Meu pai e o filho do patrão tinham prazer em me castigar. Este segundo sujeito o fazia por ciúmes doentios da minha pessoa, já que era um rapazote franzino e de debilitada saúde. Seu cinismo e sarcasmo incomodavam a todos que dele se achegavam, não possuindo, desde os tempos de sua infeliz infância, amigos.

Somente aos onze anos, após tantos castigos injustos e de desempenhar penosamente serviços acima da minha capacidade física, seria salvo pelo padre Juliano, que sempre pernoitava na fazenda. Levou-me, no que pese o veemente protesto do patrão celerado, para a Vila de Nossa Senhora da Ajuda, justificando a carência de um ajudante tanto para as missas, quanto para a limpeza de sua igreja. Asseverava ao Senhor que trabalho não me faltaria em sua Paróquia. Na verdade, sendo um religioso observador e caridoso, desconfiava das maldades gratuitamente a mim dedicadas pelo filho do Senhor e, em especial, pelo feitor. Ao padre devo o gosto pela leitura e o aprendizado da escrita, o que aqui me favorece rabiscar essas palavras para você, revelando verdades que certamente levaria para o túmulo.

Em razão do violento tratamento que aquele Senhor desalmado dispensava aos seus sofridos escravos e, da mesma forma, das chantagens cada vez maiores impostas ao seu feitor, portanto ao meu pai, a sua rica e grandiosa propriedade vivia sob o espectro da desconfiança e do medo. Chegavam notícias de quando em vez sobre motins e rebeliões de negros no recôncavo da capitania e até mesmo de incursões mais ousadas de negros rebeldes nas ruas da Cidade da Bahia. Os velhos tropeiros, com muita perspicácia, repassavam tais informações, as quais, de certo modo, agitavam ainda mais a escravaria subjugada. Quando não sabíamos dessas revoltas através dos tropeiros, suspeitávamos de suas ocorrências, pois o patrão logo aumentava a vigilância e até preventivamente nos castigava, alegando raivosa e cinicamente que aqueles duros castigos eram aplicados para inibir qualquer tentativa de subversão da ordem estabelecida.

Traumatizado pela perseguição a mim imposta pelo meu próprio pai quando ainda criança, sabedor do longo sofrimento de minha mãe e, sobretudo, não desejando retornar para a fazenda e ter que encarar aquele filho de meu patrão a renovar suas armações contra mim, não acatei à exigência para retornar ao engenho, temendo ser novamente submetido ao duro trabalho nos canaviais. Escasseava-se a mão de obra nas propriedades, em face das primeiras leis proibitivas do tráfico negreiro, impostas ao Brasil pelos ingleses. O preço do escravo elevara-se consideravelmente!

A minha ousadia em não querer voltar para a fazenda custaria ao meu pai grave repreensão. Instado pelo autoritário patrão, de surpresa e acompanhado de três capangas, meu pai me resgatou em meio a uma celebração eucarística, conduta logicamente reprovada pelo padre protetor, mas que, dada a sua impotência para reagir a tão arbitrária ação, eu sucumbi nas mãos de meus algozes. Apanhei durante toda a viagem de retorno a fazenda. Castigo que foi renovado quando da minha chegada, diante da assustada audiência dos demais escravos e das cínicas louvações do filho infeliz do desumano patrão. Padeci no pelourinho cinqüenta chibatadas e fiquei dez dias sob constante vigilância, enclausurado na senzala, tendo meus pés rudemente acorrentados e ainda suportar as visitas diárias do cínico Sinhozinho.

O ódio que nutria por aquele sujeitinho enfermo, verdadeiramente uma criatura desnaturada, com o qual eu crescera, desde os primeiros dias de minha triste infância, passando pela minha sofrida adolescência, transformou-se em incontrolável obsessão. Curei as chagas do meu corpo contando os dias, as horas e os segundos para friamente materializar a minha vingança. Custasse ela até mesmo a minha vida, acaso não obtivesse sucesso na planejada fuga, eu teria de executá-la, nem que fosse apenas pela paga das dores vivenciadas por minha mãe.

Creio que agora, menina Clara, entenderá meu retraimento a sua pessoa e porque tão indesejada para mim é a sua presença. Passarei, agora, a relatar o meu crime, em função do qual fugi para tão longe, escondido num porão fétido de um velho bergantim, naufragado nessa maldita baía.

Numa tarde sombria em que muitas nuvens negras cobriam o céu da fazenda e o vento assustadoramente açoitava o canavial, os feitores, temendo certamente o descarrego da tempestade que se anunciava, apitaram sinalizando o término do nosso desumano trabalho. Mas, apesar do cuidado daqueles fieis empregados, a chuvarada sorrateiramente se precipitou sobre todos nós, acompanhada de relâmpagos e trovões. A escravaria correu para todos os lados. Alguns cativos buscavam ingenuamente proteção que, na verdade, não existia, mas outros, como eu, aproveitando-se da rara oportunidade que aquela confusão ofertava, intentaram a fuga desesperada. Foi um “Deus nos acuda”.

Atordoados, os feitores não sabiam se salvavam suas próprias vidas da ação cada vez mais perigosa dos raios, pois dois escravos já haviam sido fulminados pelas descargas elétricas da natureza em revolta, ou se perseguiam os negros que se evadiam pelos meandros sinuosos dos canaviais. Em meio àquela balbúrdia que parecia não ter fim, ouvi, ao lado de três companheiros de fuga, vários tiros bem próximos ao local em que estávamos escondidos. Ao se aproximarem os estampidos daquela carga perseguidora, reconheci na montaria o desgraçado Sinhozinho de arma em punho, a gritar loucamente e a mirar nos escravos que ainda tentavam fugir. Para seu infortúnio e sorte minha, o cavalo do sujeitinho, refugando a poucos metros da cerca, atirou violentamente seu cavaleiro ao chão, onde caiu desacordado. Então, calmamente saí do mato, despreocupado, inclusive, com a possibilidade de ser avistado por algum outro capanga do senhor, aproximei-me do corpo desfalecido do Sinhozinho e pegando de seu próprio armamento, mirei em sua testa e antes de descarregar toda a munição, disse-lhe estas palavras:

Ah Cabra Infeliz! Receba essa carga vingadora e vá para os quintos do inferno”.

Sem pestanejar disparei todos os tiros que a arma pode cuspir na cara daquele sujeito desqualificado. Em seguida, pus a arma em seu peito e desapareci. Passei quase dez dias metido na mata, padecendo fome, sede e frio. Fui picado por uma infinidade de insetos peçonhentos e me debilitei com as febres. Tive a sorte de encontrar um negro fugido da propriedade, que me auxiliou a chegar numa praia deserta, na qual ele afiançava que algumas embarcações transitavam realizando transações de açúcar, aguardentes e muitas outras quinquilharias ansiadas, em especial, pelas mulheres, a exemplo de panos da costa e vários tipos de pimenta. Embarcamos clandestinamente num desses bergantins portugueses. Muito pelejamos porque navegamos escondidos em seu porão apinhado de mercadorias estragadas, as quais nós devoramos para saciar a fome, todavia sofremos as danosas conseqüências. Meu parceiro pereceu no navio. E eu, apesar de seriamente debilitado, guiado pela mão divina, salvei-me milagrosamente quando a embarcação, ao adentrar sob forte tempestade nessa profunda e misteriosa baía, chocou-se contra as pedras e, com impensável rapidez, afundou.  

Desde então me recolhi neste abandonado farol, que se transformou em minha moradia. Aqui me isolei, pois o meu crime fora testemunhado pelos outros capangas que acompanhavam o maldito e vitimado Sinhozinho e eu sabia que a perseguição do patrão, ou seja, do velho e malvado Senhor a minha pessoa não seria interrompida enquanto eu não fosse recapturado e o meu corpo friamente massacrado no pelourinho de sua rica propriedade.

Portanto, menina Clara: aqui confesso que a vítima do meu crime, do qual não me arrependo, foi o seu inditoso e mais velho irmão, o Sinhozinho Requião. A minha fuga e isolamento nesse farol se deve à ferina e insistente perseguição do Senhor Requião Baptista, o seu famigerado progenitor!

Compreendi o porquê da sua insistência quando deseja alcançar um objetivo qualquer. Teve a quem puxar na vida! Não direi que lamento pela morte de seus pais, pois estaria cinicamente mentindo. Colheu o que violentamente plantou! Mas lamento pela sua avó, Dona Júlia e, sobretudo, por você, que me parece ser uma boa menina. Infelizmente, não poderemos conviver sob tanta vulnerabilidade. Como não sou um assassino profissional – aqui lhe relatei as justas razões do meu único crime -, não podendo e nem querendo matá-la, tenho que partir, inclusive para não ser morto quando provavelmente for descoberto.

Que Deus lhe proteja!
João Crisóstomo.

Duda não se conteve. Chorou copiosamente, lamentando o triste desenlace que envolveu e afinal severamente castigou aquelas duas criaturas que, premidas pelos seus dramáticos destinos, poderiam pintar com suaves, harmônicas e mais belas cores as suas difíceis existências, espantando os fantasmas que tanto tempo assombraram as suas vidas.

O sossego da Ilha do Farol seria novamente alterado três meses após os afogamentos de Clara e do Véio Sombra. Um grupo de negros africanos surpreenderia àquela gente pacata adentrando a baía a bordo de três combalidos veleiros. Alguns, que pareciam ser os líderes, portavam dorsos em suas cabeças e escapulários em seus pescoços. Apesar de seus precários estados físicos, andavam com as suas cabeças erguidas e mantinham firmes seus olhares nos primeiros contatos. Chegaram famintos e estropiados. Após o desconfiado acolhimento, a comunidade do Funil compreendeu que eram negros islamizados, alcunhados Malês, que milagrosamente sobreviveram ao massacre contra eles perpetrado pelas forças policiais, já que fazia pouco mais de um ano (janeiro de 1835) que aqueles negros lutadores, letrados e conscientes de sua religiosidade e força haviam protagonizado um dos mais famosos levantes de escravos na Colônia, que ficaria reconhecido como a Revolta dos Malês, verificada em Salvador da Bahia.

Mas o que realmente contribuiu para um valoroso aprendizado, como exemplos a serem seguidos, ou mais particularmente como traços fundamentais de caráter para guiarem os comportamentos e condutas, principalmente para Duda e Letícia, foram a perseverança, a coragem e o otimismo de Clara. Uma adolescente que nunca teve medo de expressar seus sentimentos, de perseguir seus objetivos e, muito especialmente, de viver a vida intensamente.


Roberto Dantas

Janeiro/15.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

CONTO - A CASA DO RIO

















A casa visceralmente traduzia um passado ao mesmo tempo glamoroso e dolorido. Por mais que a saudade desvele um legado de paixões e prazeres, justamente por isso ela cruelmente confirma, no presente, sob o domínio insidioso das ausências, a impossibilidade de reviver. E, aí, naturalmente ganham vida as lancinantes lembranças.

Enlevado por tais reflexões, bicando, homeopaticamente, o seu vinho seco, inseparável companheiro das longas horas noturnas, e embalado pelo lento vai e vem de sua gasta cadeira de varanda, Artur era visitado por múltiplas imagens e mergulhava em dramáticas viagens. Nesses momentos de melancolia e soberana solidão, em que só a memória conduz aos pensamentos, era impossível o controle das lágrimas.

A chuva fina entoava um dissonante ressoar de pingos, desenhando poças que logo se desfaziam para dar lugar a outras diferenciadas, conformando novos traçados no amplo terreiro. De quando em vez, Artur ouvia, absorto, ruídos de portas mal fechadas ou repentinos estalidos de madeira, como se os espíritos dos antepassados ou até mesmo a centenária mesa em que estes - quando de suas últimas encarnações aqui na terra - costumavam prazerosamente comer e muito prosear ali também requisitassem, saudosos, a sua histórica presença.

Artur, que no passado recente desempenhara as funções de coletor-chefe, quando praticamente vivia a bordo das locomotivas da Viação Férrea Leste Brasileira, palmilhando uma infinidade de pequenas cidades e bucólicas vilas, realidade benfazeja que lhe proporcionou muitas amizades em diferentes localidades visitadas, agora, ali sentado e só em sua antiga e aprazível vivenda, às margens do São Francisco, nas Alagoas de Graciliano Ramos, maturava suas derradeiras noites devorando livros e vinhos, mas, sobretudo, ceifado por caras recordações. Desquitado, também não tivera filhos de seu efêmero e polêmico casório.

Fazia pouco mais de dois meses, premido por tais lembranças e, certamente, desejando ocupar-se de algo que lhe tolhesse o tempo, talvez mesmo por ter completado setenta anos de labutas e alegrias, finalmente decidira escrever suas memórias. Doutor Clementino Dias - seu médico particular, com quem, todavia, mais conversava amigavelmente do que verdadeiramente se consultava -, muito lhe cobrava essa tarefa e exultou ao saber da decisão de Artur envidá-la. Encargo para o qual se dizia despreparado, apesar de sempre produzir belos textos quando assim a necessidade o premia. Após longas madrugadas de insônia, regadas a vinhos e lágrimas, negociando com a insistente modéstia para se reconhecer um bom escriba, são estas as lembranças que ensejaram o relato a seguir e eu, como seu único e último amigo, as socializo para o devido conhecimento.


 “Breves Reminiscências”. Piranhas, setembro de 1954

Escrevo, ainda, sob os impactos do suicídio do nosso polêmico e rechonchudo presidente. Fácil imaginar a conturbação e, sobretudo, o carregado sentimento lutuoso que devem ter tomado conta das ruas da belíssima capital federal, em razão do dramático passamento do idolatrado ditador de Bagé. Permanecerá entre nós o varguismo? Arriscado qualquer precipitado palpite! Certamente mais fácil é conceber o remorso e os receios cruciantes de seus ferrenhos opositores, dos quais aqui logo me vem ao pensamento a figura controversa e agitada do jornalista Carlos Lacerda, grande amigo e correligionário de meu já falecido pai. Que o grande séquito de viúvas getulistas não lhe venha no encalço e, assim, uma nova tragédia não se dê nessa República de erros!

Esta minha casa que ainda hoje me acolhe, vazia e tão cheia de ecos, quase que tocada pelas misteriosas águas do querido “Velho Chico”, guardiã de segredos inconfessáveis, vivenda em que me fiz homem, naturalmente me induz para que, através desses claudicantes escritos, produza o que aqui alcunho de “Breves Reminiscências”. Ao fazê-los, assim especulo, consumirei considerável tempo do meu solitário cotidiano, ocupando-me, portanto, de algo produtivo, além de alimentar-me com as lembranças ditosas de alguns acontecimentos. Contudo, do mesmo modo, intenciono exorcizar sentimentos e fantasmas que até hoje me acometem e me causam aflição. Julgo que assim procedendo não deixarei morrer comigo boa parte da história dessa querida e antes tão luminosa morada. Que seja realmente produtiva a viagem!

Lembro-me bem – Oh Deus! Que lembrança tão real! -, do dia em que aqui pisei pela primeira vez. Era a véspera do natal de 1900. Dada a singularidade da data, que obviamente proveria a todos nós um novo século, os videntes de plantão profetizavam, como de costume, as suas irremediáveis catástrofes e muitos indivíduos, seduzidos pelos seus mais distintos credos e debilitadas instruções, criam na proximidade do juízo final.  Havia somente uma semana que eu completara os meus 15 anos. Éramos seis: meu pai, minha mãe, minha doce e frágil irmã, Dona Santa e sua filha, e eu. Família relativamente pequena em relação à média de filhos que naqueles dias nasciam nestes rincões nordestinos.

Trazidos pela rude balsa, após belíssimo passeio pelo rio, vindos de Poço Redondo, Sergipe, ficamos, minha Irmã e eu, maravilhados com a beleza da casa, sobretudo encantados com o seu jardim e sua espaçosa varanda, pois que apenas para nós dois, como um presente especial de natal, nossos pais haviam escondido aquele novo destino. Júlia, minha irmã, e Serena, a filha de Dona Santa, nossa babá e cozinheira, tinham 10 anos. E para fomentar aquele iniciante fascínio, constituindo-se num garboso cartão de boas vindas, deu-se para o infinito das águas do histórico rio um crepúsculo por nós jamais testemunhado. Desembarque prazeroso. Pôr do sol magnífico. Dia realmente inesquecível.

A primeira noite na casa do rio – pois assim passamos a carinhosamente chamá-la – foi de deliciosa aventura. Ainda sem camas, curtimos as estrelas cintilando na amplidão, inebriados pela brisa da madrugada até quando o sono nos venceu na acolhedora varanda que à vivenda abraça de ponta a ponta, dando-lhe graça e vida. E logo no primeiro amanhecer, tomados por inusitado entusiasmo, cuidamos de a tudo limpar e de pôr ordem no que estava embalado, carecendo, portanto, de uso imediato. Dos brinquedos aos livros, das panelas aos lençóis, do faqueiro as toalhas, enfim, tudo asseado e devidamente acondicionado. Lembro-me, em especial, da dificuldade de meus pais para fixarem adequadamente o imponente relógio na parede principal da sala de jantar, relíquia dos tempos de meu bisavô paterno, instrumento que ainda hoje escuto as suas sonoras badaladas, ecoadas ao meio dia, às dezoito horas e à meia noite, sinalizadoras, respectivamente, dos momentos de fome, da Ave Maria e dos limites da vigília.

No belíssimo jardim, cuja grama mamãe mantinha sempre verdinha e aparada, logo cuidamos – as três crianças extasiadas - de improvisar o balanço no tronco do cajueiro e de plantar as sementes das pitangas que ansiávamos chupá-las sem demora. Também as meninas trataram de edificar sob a frondosa mangueira, que ficava um pouco mais afastada da construção, a delicada casinha de adobe e coberta de palhas secas, na qual acomodaram as suas prediletas bonecas de pano, seus estojos coloridos de maquiagem, dois pequenos espelhos e duas bancadas de madeira. Ali pertinho de nós, majestoso, corria o rio dos nossos banhos diários, curtidos, sempre, sob a supervisão rigorosa de Anastácio, o já idoso caseiro que meu pai contratara na cidade, logicamente a ele bem recomendado. Tornou-se, sem dúvida, a casa dos nossos sonhos. Tornar-se-ía, também, na carona das circunstâncias do tempo, palco e cenário de alguns dissabores em sua longeva e rica existência.

Como primeira e inesquecível lembrança – ao menos para mim -, recordo do meu primeiro beijo. Sim! Foi na casa do rio que beijei a minha primeira e proibida paixão: Serena. Para nosso azar, o gesto debutante teve uma indesejável testemunha! Os padrões da época não aceitavam e até violentamente reagiam acaso um filho de patrão namorasse, ou muito pior desejasse desposar uma descendente dos empregados, fossem eles encarregados de quaisquer funções. Intimidade que, por mais amável que fosse a relação entre os envolvidos, como de fato se dava entre meus pais e a nossa tão querida Dona Santa, era rigorosamente cerceada! Esta honesta e sempre disponível criatura, muito mais do que uma babá e cozinheira, por todos nós era considerada como um ente da família, verdadeiramente amada. Grávida e abandonada pelo marido infiel, Dona Santa trabalhara anteriormente na casa da minha avó materna. Após o falecimento desta, foi acolhida por minha mãe que carecia mesmo de alguém de confiança e que soubesse cozinhar para tomar conta de seu primeiro filho recém-nascido, este, portanto, que aqui, tomado por caras recordações e surpreendente coragem, penosamente escreve.

Vi Serena nascer muito animado pela coincidência do seu aparecimento no mundo ter se dado exatamente no dia em que eu completava cinco anos. Foi uma festança na nossa ex-morada, lá em Poço Redondo, quando meu pai, o austero Doutor Antenor Borges, me deu o mais querido e saudoso presente que até aquele dia já ganhara: um livrinho de páginas em branco, a ele acoplado uma belíssima caneta prateada. Disse-me ele com imenso carinho: “aqui está o livro de sua vida, onde escreverá com esta bela caneta tudo o que gostar, que acontece e acontecerá de agora em diante”. Passados, apenas, três meses de uso diário daquele presente, justamente pelo fato dele não me separar, o perdi para a correnteza do rio, pois que num passeio de canoa desequilibrei-me e caí na água, tendo o adorado livrinho e sua caneta perecidos no mistério daquelas águas escurecidas. Triste fim. Perda bastante sentida.

Torna-se, entretanto, destacar que quando alcançamos - Júlia, Serena e eu - respectivamente as idades de oito e treze anos, então matriculados numa nova escola em Poço Redondo, contraímos boas amizades com alguns meninos, ainda que houvesse – eu em relação a elas - relativa diferença entre nossas idades. Neste notívago grupelho, um galego de nome Fausto, de dez anos, cujo apelido pretensioso era “Bonzão”, logo criaria asas para Serena. Todos perceberam. Eu, sem tanto perceber, me incomodei. Inicialmente me enganei e tentei enganar, sem sucesso, aos demais amigos, usando como desculpa para a minha reprovação ao assédio do sujeitinho convencido a reação certamente violenta de meu pai, acaso ficasse sabendo de alguma coisa existente entre eles. Mas, de fato, sentia ciúmes e, assim, logo entendi que já olhava Serena de outro modo, sempre desejando estar próximo, às vezes até querendo beijá-la e já imaginando seus lábios tão bem feitos grudados aos meus. Sonhei com isso durante muito tempo, já que me faltava coragem para materializar o sonho e, conseqüentemente, confessar o meu mal disfarçado desejo.

Num final de tarde, quando deixávamos a escola – na oportunidade, Júlia, por estar resfriada e o céu muito carregado, permanecera em casa -, fomos, Serena e eu, colhidos por violento temporal, o que nos fez correr para a varanda de um sítio abandonado que distava, apenas, uns quinhentos metros da nossa chácara. Ao clarão do raio sobreveio um forte estrondo do trovão, o que levou naturalmente Serena aos meus braços, guiada pelo medo. Ao sentir aquele abraço que tanto desejava, fiz-lhe carinho na face e lhe disse que não se preocupasse e nem temesse, pois nada nos aconteceria e ali estava para protegê-la. Seus olhos brilharam e, aí, sem que eu previsse ser aquele o momento tantas vezes por mim ensaiado e nunca consumado, confessei meus sentimentos e beijei-lhe timidamente a sua face morena, apertando ao meu tronco aquela linda e bronzeada criatura. Para minha surpresa e indescritível alegria, ela não somente agradeceu, como, também, mais fortemente atrelou seus braços aos meus. Inesquecível momento. Ditosa sensação de bem querer.

Com o passar dos dias a minha paixão por Serena foi se tornando cada vez mais transparente, o que fez Júlia questionar os meus sentimentos. Admiti para minha irmã que estava sofrendo muito e ela, mais preocupada com a indigesta reação dos nossos pais do que propriamente com o meu sofrimento, aconselhou-me o imediato afastamento de Serena e “que não desse mais bandeira”. Dali em diante Júlia sempre condenaria meus desejos, afastando-me sempre que podia dos encontros e passeios, o que muito me contrariou e nos trouxe alguns breves conflitos.

No entanto, logo saberíamos da nossa mudança de Poço Redondo para Piranhas e isso me trouxe relativo alento, pois, além de me ocupar com os preparativos para a dita mudança, esquecendo um pouco as minhas aflições, fiquei satisfeito pelo fato de Serena ficar definitivamente livre das garras daquele galego impertinente. E não perdi a chance de, na véspera de minha definitiva partida de Poço Redondo, desabafar meus rancores dizendo àquele sujeitinho que, além de sua aparência me lembrar um coelho empapuçado, dados os dentões disformes que logo se insinuavam ao mínimo sorriso, o odor de seu suor era mais incômodo do que murrinha de bode velho. E o interessante é que ele não entendeu bem aquela agressão e calado se escafedeu. Rude galego!

Uma vez mais a tempestade daria a oportunidade, a mim e a Serena, de definitivamente revelarmos a paixão recolhida. Nas águas do Velho Chico os clarões fantasmagóricos dos raios produziam imagens tenebrosas. Nossos pais haviam saído para a reunião quinzenal da Paróquia e Júlia cedo adormecera. Amedrontados diante daquela borrasca, perscrutávamos a chuvarada da varanda. A ela relembrei do temporal por nós vivenciado em Poço Redondo e de novo confessei meus sentimentos. Naquela noite de nova tormenta, aproximei-me e peguei em suas mãos que estavam frias. Seus olhos sinalizaram-me aquiescência. Aí, ansioso, apliquei-lhe ardente beijo, que me foi, com a mesma intensidade, retribuído. Era o meu primeiro beijo! Era o dela também! E mais gostoso ainda porque se dava na nossa casa do rio. Ali demos início ao nosso relacionamento afetivo. Preocupados, antes mesmo de trocarmos novo e demorado beijo e de nos apartarmos daquela varanda, combinamos que apenas confessaríamos o namoro à Júlia, de quem julgávamos contar com a necessária cumplicidade e o imperioso apoio. Namoro a ser castigado e proibido pelos nossos pais acaso a estes fosse dado conhecimento. Todavia, como ingenuamente pensamos, não estávamos naquela varanda, sob os ditames da ventania, a sós!

Dona Santa, temerosa em razão das chuvas torrenciais e, mais ainda, assombrada com a vilania dos cortantes raios clareando as águas do rio, a tudo testemunhara da porta da cozinha, de onde, cuidadosamente escondida, derramou lágrimas já prevendo o desacerto que causaríamos em sua vida a partir daquele nosso indevido envolvimento. Pressentiu que ali terminaria a sua vivência e, logicamente, a de sua filha, naquela família que as adotara e para a qual tanto tempo se dedicaram com lealdade.

Dolorida e incompreensível a notícia, logo no entardecer do dia seguinte, repassada pelos nossos desconfiados pais, dando-nos ciência de que Dona Santa e Serena, para incompreensão deles, inconformidade de Júlia e profunda tristeza minha, partiriam definitivamente da nossa casa, tendo para tal decisão a alegação da morte de uma irmã da adorada e prestativa cozinheira que, em face da referida tragédia, carecia urgentemente acolher aos seus sobrinhos tornados órfãos. Assim, em dois dias nos deixariam e, sem mais palavras, rogavam a nossa difícil compreensão.

Desesperado, saí sem rumo perambulando as margens do rio, chutando as águas e bradando aos céus minha revolta diante daquela aterradora notícia. Vários planos desatinados passaram por minha cabeça atribulada, pois não poderia permitir a partida de Serena. Seqüestrá-la? Mas, para qual destino? Dadas as nossas idades e sendo eu filho de quem era, a nossa fuga certamente não lograria êxito. Cansado e trêmulo, sentei sob a meia sombra de uma umburana de cheiro e copiosamente chorei. Somente dei-me conta do tempo que já havia desaparecido de casa quando ouvi meu nome ser repetida e desesperadamente chamado pelo velho Anastácio, que fazia algum tempo me procurava pelas redondezas, a mando de meu pai. O caseiro astuto e experiente, sem que eu nada lhe revelasse, aproximou-se e acariciou os meus cabelos, dizendo-me com terna serenidade: “não se avexe tanto meu jovem. O tempo a tudo cura e o amanhã somente a Deus pertence. Tenha fé que tudo passará”.

Tal qual o primeiro beijo, a partida de Serena marcou-me profundamente. Foi como se um pedaço de mim tivesse sido extirpado, deixado de existir e o brilho da casa do rio houvesse perecido. Senti no coração uma sensação de vazio indescritível. Jamais esqueci o seu olhar de derrota a me fitar na hora da partida e, em sua face delicada de menina, vi, pela última vez, escorrer as lágrimas que, na verdade, choravam a nossa comum e cruel tristeza. Passariam quase dez anos para que eu, uma vez mais visitado pelas surpresas da vida, fitasse novamente Serena. Foi num baile de carnaval em Maceió, igualmente numa noite de chuva, que a vi dançando alegremente no meio do salão. Meu coração pareceu despregar do peito e sair pela boca. Estatelado, senti meus pés presos ao piso e permaneci feito uma estátua a observá-la nervosa e silenciosamente. Quando, enfim, decidi abordá-la, vi um sujeito bem apessoado tomá-la nos braços, beijá-la desbragadamente e levá-la, sorridente, para a outra extremidade do salão. Em dois minutos já estava na rua, tomando o caminho do hotel, onde, dissecando minha angústia, derramei sentidas lágrimas e padeci longa e sofrida insônia.

Nesta noite de tristes lembranças lembrei das sábias reflexões de um jovem frei, constantes de sua nobre obra: “Só o tempo, que não corre ao sabor da nossa pressa, restitui certos episódios as suas reais dimensões, suturando os corações, arejando as mentes das paixões, definhando o ódio na medida em que renasce, alvíssara, a força promissora da esperança”.

Mas a casa do rio também me propiciaria bons momentos. Nela celebrei o meu ingresso, mediante nota máxima, no Curso de Administração. Noite de regalos inesquecíveis e de discursos apoteóticos, especialmente os que meu pai protagonizou, tomado de exacerbado orgulho em face do feito conquistado pelo seu primogênito. Por indicação prestigiosa dele, assumi o posto de escriturário na Ferrovia e, sem delongas, tornei-me Coletor-Chefe. Aposentei-me, tempos depois, ainda saudável e com aquela sensação de dever cumprido.

Também me recordo do dia em que meu pai, reafirmando o seu grande prestígio de líder político, trouxe para nossa casa ninguém menos do que o jovem jornalista, polêmico e ambicioso político Carlos Lacerda, o mais agressivo opositor do então presidente Getúlio Vargas. Meados dos anos quarenta e o mandatário-mor da Nação excursionava pelo sertão. Lacerda, na cola de suas pegadas, também se fez presente em algumas capitais nordestinas e, como de costume, disparava sua metralhadora verbal contra o presidente. Foi uma noite memorável na casa do rio. Uma plêiade de políticos compareceu em nossa vivenda, oportunidade em que a indicação do nome de meu pai foi por toda aquela ilustre camarilha referendada para concorrer a uma cadeira na Câmara Federal. Noite de beberagens, acaloradas discussões e promessas de mudanças políticas. PSD, UDN, PTB e, com menor cacife, o PCB envidavam suas disputas e buscavam a maioria dos votos dos brasileiros. Nestas ocasiões eu sentia pena de minha mãe, Dona Bentinha, que se esbaldava nos preparativos para bem recepcionar toda a comitiva de notáveis e, dessa forma, agradar a meu pai. E uma envolvente e bem executada valsa foi garbosamente encenada na grande sala desta nossa acolhedora casa do rio.

Outra partida, entretanto, me acometeria de maus presságios. Minha frágil irmã, que desde seu nascimento padecia de problemas respiratórios, acometida por mais uma grave crise asmática, numa madrugada de aflições, partiria de casa para tratamento emergencial na capital, de onde não mais voltaria. Júlia, internada durante longos três meses, tendo seus combalidos pulmões deixado de funcionar, veio a óbito sem sequer completar seus trinta anos. Sua doença era pelos meus pais ocultada, irracionalmente minimizada. Todavia, todos desconfiavam da fragilidade de sua saúde. Novamente imperaram as convenções tão descartáveis dos ditos padrões sociais. Hoje, sem receios, ainda que atrasadamente, eu posso confidenciar nestes escritos tanta insensatez nesta casa vivenciada. Perda irreparável. Um pouco da vida de minha mãe também se foi.

As mortes de meus pais, apesar de dolorosamente sentidas, tiveram as suas tristes ocorrências de acordo com a obviedade do tempo. Ambos faleceram velhos e colhidos por enfermidades aceitáveis. Minha mãe - que nascera, inclusive, um ano antes que meu pai -, dada a sua diabetes crônica e a gula incontrolável por doces, foi por essa indigesta enfermidade ceifada aos sessenta e cinco anos, deixando apenas por mais três anos meu pai numa viuvez comovente. Este, por sua vez, desde a juventude padecia crises insuportáveis de gota, razão dos altos níveis de ácido úrico no seu organismo. Assim como mamãe, o velho não se cuidava e a falência dos rins contribuiu decisivamente para o seu falecimento. Esta casa, quando de seu velório, uma vez mais ficaria pequena para acolher a tantos políticos e correligionários, além da parentela agregada que aqui se fez presente e, tal qual se dera no dia da minha formatura, muitos e logicamente mais dramáticos foram os discursos proferidos. Quando retornei do sepultamento dei-me conta de que, além do empregado e amigo Dorival, apenas eu havia na casa sobrevivido, ali vulnerável ao abraço gélido da solidão.

Entretanto, do velório de meu pai nunca esqueci as palavras hilárias do nosso prefeito Gibão, homem criado na roça, inveterado bebedor de cachaça e que muito patinava com o plural das palavras, sendo seus discursos maculados pelos erros verbais, os quais, para seu azar, foram rebatidos pelo folclórico bêbado Januário. Protestando os seus leais sentimentos à figura do líder falecido, assim se expressou ao pé do esquife:

PREFEITO GIBÃO: “pode partir tranqüilo meu caro Antenor! Pode arribá lá pra riba que Deus está a guiá nós todo sem a sua ilustre presença, pois somo mesmo bastantemente maió do que tudo. E por falar em tudo, tudo mesmo o sinhô fez por esta nossa Piranha adorável, Piranha que segue uma vida agora ilibada porque pelo sinhô foi bem encaminhada. Acabosse os tempo ruim das rua enlamiada do pobre Bairro da Palha, apois foi vosmicê que aterrô-las e calçô-las”.

E, aí, o nosso atarantado Januário, cambaleante, esbravejou:

JANUÁRIO: Êpa! Oh homi doidô! Falando nos meio dessas madame de rôla e calçóla! Valheme Santo Deus! Me sirva uma cachaça aí mô fio!

Impossível era não rir, ainda que mascaradamente, diante de tão instigante palavrório! O prefeito Gibão, a todos surpreendendo, também faleceria apenas uma semana após o passamento de meu pai. E a nossa Vila de Piranhas vestiu-se de luto, particularmente o povo freqüente das rudes tabernas da feira e, mais especialmente ainda, os pobres moradores do Bairro da Palha. Januário? Este infelizmente foi barrado no velório.

Vi-me só, neste charmoso e imenso casarão, após a partida de meu pai. Até esqueci de aqui dizer que o velho Anastácio, já cego de um olho, havia, pouco antes da morte de minha mãe, nos deixado e retornado para o seu torrão natal, alegando, com justa razão, que desejava morrer na companhia de seus filhos crescidos, lá na sua amada Serrinha.  Tomou o trem e nunca mais tivemos qualquer notícia deste honesto trabalhador. Em seu lugar, para minha sorte, aqui chegou o já citado Dorival, a quem chamo “Coringa”. Trata-se de um interessante cidadão, dotado de inteligência e bom humor, funcionário polivalente e que até hoje se constitui na minha única companhia nesta casa, diria mesmo meu anjo da guarda. Tornou-se, como não poderia deixar de ser, um grande amigo.

Todavia, haveria uma noite inesquecível nesta casa, na qual eu vivenciaria rudes aflições. Refiro-me a noite da festa prévia e efusivamente agendada para a celebração do meu indesejado casamento.

Conheci a senhorita Tereza Cristina da Silva Raposo num baile em que meu pai - o sempre ditador das minhas condutas - fez questão para que eu a cortejasse. Logo entenderia aquele desejo paternal. A criatura em questão era a única filha do velho fazendeiro Diógenes Raposo, correligionário de meu pai e, como este, bastante respeitado e autoritário. Tereza até que inicialmente me impressionou, no que pese o seu jeito de “menina bicho do mato”, pois que vivia recolhida em sua rica propriedade, razão da rígida criação de seu pai, o qual, como aliás todos os senhores daquela época faziam, dava como únicas opções para a sua mimada e casta filha a de casar com o marido por ele escolhido, ou, a isto se negando, arrumar as malas e tomar o caminho dramático do convento.

Após dançarmos e pouco conversarmos sobre assuntos banais, nos despedimos ante a promessa de meu pai de visitarmos ao Coronel Raposo – pois assim era alcunhado – na semana seguinte. E para aquela imponente fazenda, situada nas proximidades da Vila de Penedo, fomos todos: meu pai, minha mãe e minha adoentada irmã, que inclusive padeceria por lá séria crise asmática. Tinha eu apenas 23 anos.

Para minha inditosa surpresa, meu pai, após ingerir três taças de vinho pediu, em meu nome, mas sem me consultar, a mão da tímida e assustada moça em casamento. Silêncio constrangedor, apenas rompido pela risada prazerosa do Coronel Raposo que, além de conceder a sua filha para o requisitado matrimônio, ergueu sua taça de vinho e conclamou a todos para um entusiasmado brinde. Brindaram e beberam ao meu futuro casório ante a minha cara de paisagem!

A partir daquela noite de compromisso tive que não apenas suportar as ameaças de meu pai em resposta às minhas de tudo interromper, mas, do mesmo modo, somando-se a tal estado beligerante em casa, conviver com a dramática chantagem a mim direcionada pelo Doutor Antenor em relação ao estado avançado da enfermidade de minha mãe, que, tal como ele, tanto ansiava por aquele casamento de encomenda. Vivia dia e noite matutando como escapar daquela cilada sem contar, entretanto, com qualquer solidariedade. Júlia, coitada, cada vez mais frágil em função de sua asma crônica, pouco se intrometia e eu, logicamente, evitava aborrecê-la com o meu drama.

Instado pelo Coronel Raposo, obviamente com a concordância de meu pai, tive que logo noivar e, por isso mesmo, freqüentar mais regularmente a casa da minha passiva noiva. É que as famílias ditas de ilibada reputação de Piranhas tinham que testemunhar todo aquele processo ser moral e obrigatoriamente cumprido: namoro, noivado, casamento. E, é claro, sob os auspícios imperiosos da virgindade feminina!

Devo confessar: Tereza Cristina não me causava nenhum torpor e até percebia que ela tentava me cativar o máximo possível. Naturalmente muito mais conversávamos do que namorávamos, até porque cometer qualquer ato indecoroso antes do casório era algo passível de ser violentamente reprovado. O medo das conseqüências inibia aos instintos. Porém, com o passar dos dias - o casório fora marcado para o período de seis meses, dando-se tempo hábil para os preparativos necessários –, aqueles encontros foram se tornando enfadonhos para mim e creio, até, para ela também. Tereza logo percebeu a minha pouca vontade para não somente me fazer presente em sua casa, mas percebera, sobretudo, que aquele casamento não era por mim desejado.

Para encurtar a história, o casamento se deu numa noite de sábado, no dito mês das noivas, em maio de 1907. A casa do rio encheu-se de convidados e até o Bispo se fez presente para celebrar o casamento dos abastados e assustados jovens alagoanos. Noite realmente inesquecível e digna de constar nas páginas dos romances melodramáticos.

Após a cerimônia religiosa, decidi que, em razão das minhas concessões, inclusive do meu futuro aos caprichos de meu pai, que beberia desregradamente, querendo com isso demonstrar a minha revolta, ou mesmo buscando, através dos naturais efeitos do álcool, esquecer, ainda que temporariamente, tudo aquilo que ali se dava e que só a mim dizia respeito, causando-me dores e receios torturantes.

Conhaques, cachaças e vinhos integraram gulosamente o meu cardápio etílico. Tendo me livrado do fraque com o qual, aborrecido, me casei e arregaçado as mangas de minha camisa de seda branca, o que logicamente contrariou as convenções do Doutor Antenor, sem qualquer cerimônia, puxei indistintamente para dançar todas as mulheres, casadas ou não, que estivessem ao alcance dos meus braços bêbados. No início – pois assim me relatou detalhadamente Júlia no dia seguinte – até que todos riram da minha pretensa alegria. Mas os gestos exacerbados que propositadamente encenava ao tomar nos braços aquelas mulheres empertigadas foram, aos poucos, gerando antipatias, que viraram facilmente reprovações. Dançava sem estilos, tanto quanto gritava palavras repreensíveis. Das cafungadas nos cangotes frios das Senhôras aos ousados beliscões nas nádegas mornas das Senhoritas, passaria, sem controle, a imprudentemente recitar rudes versos que causariam inveja ao polêmico poeta baiano, Gregório de Matos Guerra, o alcunhado “Boca do Inferno”. Ninguém ali conseguira frear meus vis impulsos.

Meu pai, para sua infelicidade e, certamente, para minha também, não suportando mais o meu agressivo espetáculo, pegando-me grosseiramente pelo braço, tentou me retirar do salão, justamente no instante em que flertava com a esposa desajeitada do obtuso prefeito, este também já fartamente embriagado, convidando-a para mais uma dança extravagante. A minha reação intempestiva a todos surpreendeu e, como não poderia deixar de ser, muito mais o meu pai que, descontrolado, foi interceptado pelos amigos que estavam mais próximos, pois que seu gesto logo sinalizou uma agressão física a ser contra mim direcionada. Rapidamente a turma do “deixa - disso” acalmou os ânimos.

Neste momento de incômodo conflito, enlevado, sem dúvida, pelos efeitos do álcool, produzi o meu insano desabafo, ervurmando, sem zelos, toda a purulenta angústia que tanto me importunava. Assim, veementemente espargi meus sentimentos fazia tanto tempo reprimidos, dada a severa e castradora postura de meu pai para com sua família e, em particular, para com seus dois filhos. Ninguém, nem minha mãe, que rogava meu silêncio, me fez calar. Ali eu finalmente transbordava a minha revolta, vomitava meus recalques, mas eu sobremaneira expelia do meu coração atormentado as mágoas dolorosamente sufocadas, tal qual a larva de uma devastadora erupção vulcânica. Nada e nem ninguém me calaria naquela noite mal encenada.

Recambiado para meu quarto, onde praticamente desmaiei ao ser na cama despojado, dormi o sono turbulento dos atormentados e acordei com a consciência pesada dos que cometem, sob os efeitos insanos do álcool, irreparáveis desatinos. Somente neste momento lembrei-me de Tereza e que, apesar do triste espetáculo por mim protagonizado, era um homem oficialmente casado.

Saberia horas depois que minha tímida e assustada esposa fora levada de volta pelo seu irado pai para sua casa, sob os protestos veementes do encolerizado Doutor Antenor. Velhos amigos que ali iniciariam em conseqüência de suas autoritárias vontades e, logicamente, também, em razão dos meus atos insanos, um período de impensáveis dissensões e desagradáveis cobranças em sua antes sólida e fraterna amizade. O bom disso tudo – ao menos uma vez julgo pertinente o meu egoísmo – é que meu casamento sequer celebraria o primeiro ano de existência. Tereza, por acertada decisão e sincera vontade, retornaria para o seio de sua família, porém ganharia, sem demora, como absurda punição o seu internamento num convento de propalada reputação na capital baiana.

Com a velhice de meus pais e a necessidade de sempre estar ausente de casa para atender as prerrogativas da minha profissão, percorrendo, por seqüenciados períodos de tempo, várias localidades do estado, vivenciei, finalmente, a liberdade por mim tanto ansiada. E, aí, dei início, e os mantive pelas madrugadas e auroras de etílicas vigílias, aos meus agitados e acalorados casos amorosos. Granjeei fama e causei conflitos inomináveis. Muito amei e muito enganei. E, após as partidas derradeiras de meus pais, protagonizei aqui, nesta casa de sonhos e tragédias, cenas ardentes e, às vezes até, reprováveis com algumas de minhas adoráveis e celeradas musas.

Para que tais experiências afetivas não passem ao largo nestes escritos que aqui corajosamente produzo, lembrarei de duas seletas moçoilas com as quais tive a cara de pau e a engenhosidade de mantê-las, ao mesmo tempo, sob minha descarada batuta, já que, além de residirem na mesma cidade, ambas, ao seu modo, destilavam facilmente os seus ciúmes doentios. Joana e Clarissa, eis os nomes das minhas amadas mocinhas. Muito belas e gostosas para que meus insanos desejos abrissem mão de qualquer uma dessas adoráveis beldades!

As conheci num baile do Clube Social, quando com ambas dancei e para ambas metralhei as minhas propostas indecorosas. Razão do meu afoito palavreado, percebi que as meninas atiçaram seus tesões reprimidos, os quais, a exemplo do meu, insinuavam a ânsia de se libertarem definitivamente, sobretudo consideradas as rígidas posturas morais exigidas para a categoria de fêmeas que elas diziam pertencer. Devo confessar que eram mesmo nascidas no seio de duas tradicionais famílias, realidade que não foi suficiente para que eu abortasse os meus planos libidinosos. Durante seis meses as tive sob os meus domínios e, depois de muita verborréia utilizada, atingi meu objetivo de em ambas pôr o meu carimbo, tornando-as mulheres de fato.

Em razão dessa dubiedade afetiva, em algumas circunstâncias tive de almoçar ou jantar duas vezes num mesmíssimo dia para cinicamente atender as minhas obrigações de comprometido pretendente. Freqüentei, nem sei como isto conseguia, num mesmo dia, eventos cujas datas são fixas no calendário, a exemplo dos festejos natalinos e de Reis, das celebrações da páscoa e do dia dedicado às mães. Enfim, tornei-me um mágico para atender as minhas “necessidades” de amante profissional e me fazer presente ante as exigentes cobranças de ambas.

Hoje, aqui sozinho e a ousadamente rabiscar esses escritos, temo, como qualquer pecador e já septuagenário, a chegada da minha definitiva viagem. Reconheço que para esta derradeira empreitada não mais levarei ressentimentos. Sinto, inclusive, que ao exercitar esta tarefa nesses papéis que me sobreviverão e para a qual sempre me reconheci incapaz, tive amainados os vis sentimentos que ainda me perturbavam. Conforme previ no início da narrativa, exorcizei, portanto, os meus fantasmas, além, principalmente, de ter me deliciado com algumas das lembranças ditosas que aqui afagaram ao meu coração avariado.

Devo, por fim, agradecer, uma vez mais, ao meu caro e nobre amigo Doutor Clementino Dias pela insistência para que este arrazoado de casos eu produzisse! Muito grato também sou ao meu parceiro cotidiano, sempre solícito, cidadão inteligente e fiel amigo: Coringa! Para vocês deixo cópias endereçadas, as quais se somarão as duas outras que dentro do meu cofre sem segredos guardarei para as possíveis leituras póstumas. Como último desejo eu encarecidamente rogo aos pósteros que nunca esta casa do rio seja demolida.

Saudações,
Artur Cesar da Silva Borges


E assim, ainda corroído, mas também terna e compulsivamente tocado pelas lembranças, as quais fazia apenas um mês que ele conformara no que, com propriedade, intitulou “Breves Reminiscências”, o meu patrão, sábio e solitário, mas sobretudo querido amigo, deixaria esse mundo de contradições, causando-me, por certo, imensa tristeza. Cumpro, agora, com a minha última obrigação, que na verdade para mim tem o grave significado de dar conhecimento a quem de direito ou tão somente se interessar sobre fatos marcantes que pautaram a vida de um homem singular e de uma belíssima, acolhedora e inesquecível vivenda.

Dorival Brito. Piranhas, dezembro de 1954.

Roberto Dantas

Janeiro/15.